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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

#Conto4Conto - Volta...

 
Eu não aguento mais um dia sem Ti!
Meus olhos almejam encontrar os Seus...
Meu coração anseia estar em conexão com o Teu coração!
Não consigo conter essa ansiedade de Te ver, face a face...
De Te abraçar bem forte e Te chamar de Papai...
De viver eternamente Te adorando...
De conversar Contigo todos os dias, e Te contar como o meu dia foi maravilhoso...
De Te agradecer por nunca ter desistido de mim...
Por simplesmente Te olhar... Para sempre!
(Risos)
Eu fico aqui imaginando conversas... Imaginando risadas... Imaginando abraços...
Faço planos, escrevo canções, choro, dou risada, reflito, escuto, sinto...
Como será o seu rosto?
Como será o som da sua voz?
Imagino, confio, espero...



divulgação/facebook
Ágatha Melo é uma carteira do Cartas do Rei, e agora amiga do Nestante.com conheça mais sobre ela em seu perfil no Facebook >>> fb.com/AgathaSouzaMelo

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

#Conto4Conto - Uma cartinha...

“Oi, Papai. Saudade de você! Há quanto tempo, não? Sim, conversamos todos os dias, mas ainda estou com saudade, ela não acaba, mas eu sei que não vai demorar muito pra eu estar Contigo, pertinho e pra sempre.
Sabe? Às vezes dá vontade de não esperar mais, aí eu lembro do que me prometeu e vejo quantas promessas já cumpriu. Papai, querido, que segurança me dá! Também penso às vezes que não deveria nem falar Contigo por ter feito coisas que me deixaram tão suja, mas tão suja que Você não suportaria nem me olhar de tanto nojo. Pelo que percebo, também às vezes, não me lembro de algumas coisas importantes...
Esqueço que Você me ama e não leva em conta a sujeira que há em mim quando peço pra Você retirar e que só Você suporta limpar isso tudo. Esqueço que não importa o quanto eu erre, se eu não quiser continuar do mesmo jeito, você entende que eu ainda sinto saudade. Esqueço que sozinha eu só vou me sujar mais, mas contigo, vou querer te abraçar de tão limpa!

Por tudo o que é, o que faz, só posso te oferecer minha gratidão e amor, meu servir, minha adoração. Já que me pede tudo o que tenho, toda a minha vida te dou.



Vem me buscar logo, Papai, está muito ruim ficar por aqui!



De sua filha, com carinho.

Te espero, te temo, te amo.”



Carolina do Prado
Carolina Prado, dezoito anos, Adventista do Sétimo Dia, a semanas de ser editora de vídeo formada, provavelmente futura estudante de Design Gráfico e como consequência futura Video Designer. Perfeccionista sorridente que encontra nas palavras escritas diversão, na música renovação e em Deus guia. Encontrada facilmente em E-mail, Facebook, Twitter e Tumblr.
E-mail carolinaprado@outlook.com
Twitter @cahdoprado
Instagram @cahdoprado
Tumblr bauvermelho.tumblr.com

sexta-feira, 26 de julho de 2013

#Conto4Conto - VIDA

E acaba que, no final, você chega à conclusão, que a vida não presta, não vale à pena.
É que não há nada no mundo que faça ele realmente valer à pena, que os amigos, ainda que verdadeiros, se afastam. Que o amor humano, ainda que verdadeiro, não morre, mas esfria, e às vezes até magoa, machuca, destrói. 
Entende que há uma lista enorme de pessoas falsas, interesseiras, arrogantes, orgulhosas, imorais, mais amigas dos prazeres do que amigas de Deus. E o que é pior, percebe que o seu nome também aparece grafado nessa lista.
Aí você começa a perceber, que na verdade nunca viveu, pelo menos não algo que se possa chamar de 'Vida', que apenas passou os anos empurrando-a com a barriga enquanto estes passavam e você se aproximava, cada dia em maior ritmo, da sepultura, sem nenhum legado suficientemente bom para deixar aqui.
Então, quando você chega nesse pico da vida, cansado de escalar, escalar e escalar, frustrado, por ter apenas chegado em um lugar mais frio e mais pesado do que o anterior, você olha pra baixo e só enxerga a triste e cansativa caminhada, que te trouxe a lugar nenhum. Não existe outra conclusão diferente. Para o que diz que sim, só duas opções: ou é cego, ou ainda está escalando na tola esperança de chegar a um lugar mais agradável, mais ameno do que o atual.
Então começa a fase mais angustiante da vida, Você percebe que, pior do que a imagem da montanha abaixo, só a imagem de que não existe mais montanha pra escalar, de que a esperança, de velha, morreu. Então você clama aos sete ventos, diz que não sabe mais o que fazer, e que já chegou no pico, que não há mais montanha a subir ou qualquer perspectiva de futuro. Até espera uma resposta, mais infelizmente, vento não fala. E enfim encerra o diálogo, elimina o última resto mortal de uma esperança que a tempo não respira. Conclui que o que resta é desistir, se soltar, se jogar nas mãos do vento, para calar, de uma vez por todas o grito de um coração cansado de sofrer. Fecha os olhos e, Pula!
O ar bate no rosto. O vento geme nos ouvidos. Podes até sentir o gelado toque da água no rosto. Começa a já ficar agoniado, por esse chão, esse túmulo que não chega nunca. Mil pensamentos inundam a mente, pensamentos mais gelados que o toque da água. Mas enfim, após tanto tempo, tira um trapo de coragem do fundo do baú e resolve abrir os olhos. É aí que você percebe, que na verdade não estava caindo, mas subindo. Agora já consegue sentir que o vento na verdade o está empurrando pra cima e não somente subindo pra que você desça.
Aí vem a pergunta principal, E esse vento, vem de onde?
Então você olha pra baixo e vê um rosto, um rosto que emana amor, um amor claramente verdadeiro, Um amor que transcende o imaginável, um amor visivelmente perfeito. E entende, que foi esse amor, que há momentos atrás tapou a boca desse rosto, para que ele pudesse enche-la de achar, para soprar o vento que agora te mantém, te eleva, faz respirar novamente uma esperança já morta.
Pra onde vai, não te preocupas, pois a perfeita expressão de amor nesse olhar é suficiente para criar em você a total certeza que está a caminho do melhor lugar do mundo. E que a vida vai apenas começar, pelas mãos de um Deus que tudo pode e, que às vezes mesmo calado, tudo faz.
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Gabriel
Gabriel Ciriaco é estudante mora em Araxá, Integrante do movimento Cartas do Rei, e agora amigo do Nestante.com conheça o em seu perfil no Facebook.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Quero viver por ela.

Elis Regina já cantava que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossosssss paaaaaaaais, e em outro trecho da musica ela diz ‘hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude, ta em casa, guardado por Deus contando vil metal (vil metal que eu sempre cantei FIO DENTAL)’ e olha, nunca foram ditas palavras mais sabias. Na verdade isso já foi dito milhares de vezes e por gente com mais propriedade que a Elis, e não faltam exemplos que comprovem isso.
Tem a Narcisa que herdou um mundo de dinheiro e faz badalo de helicóptero. A Roseane Sarney herdou a política e o Maranhão, oh que beleza! A Fernanda Torres conseguiu ser atriz igual a mãe, e Maria Rita cantora, tbm igual a mãe. Tem filho que herda a padaria dos pais (bejo sabrina), e tbm tem aqueles que herdam as dívidas. A verdade é, nós filhos somos a continuação de nossos pais, e seja la qual for o aspecto da vida, nós vamos refletir nossos pais.
Eu sou abençoado por Deus por ter os pais que Ele me deu. Sou grato por isso. Mas Ele não me deu qualquer mãe, ah não. Eu tinha que nascer desta mulher, tinha que ser criado por ela. E como essa época é dedicada as mães, vou fazer minha homenagem a minha mãe, afinal ela me inspira.
Minha família não é muito comum. Já mudamos dentro da mesma cidade 12 vezes. Só tive escola fixa no primário, pq depois virou festa, uhul. Cachorro? Tive uns dois, mas minha mãe não suportava ver eles subindo nos móveis e sujando a casa. O que ela fazia? Arrumava outro dono pra eles, e me dizia (pra me deixar bolado, só pode) que tinha abandonado eles num riozinho por aí. Tenho 3 irmãos e todos fomos criados do mesmo jeito por ela. Televisão? Só desenho da cultura. Vídeo game, bichinho virtual, desenho da globo, skate, rua, amiguinhos da rua debaixo, carrinho de rolemã, correr atrás do caminhão pra cheirar a fumaça, dormir na casa de qualquer pessoa, cortante em linha de pipa, falar palavrão, dormir no culto, chorar no culto, comer no culto, connnveeeeerrrrrrsssssarrrrrrrr no culto, bater nos irmãos, mentir dizendo que não bateu nos irmãos, comprar pintinho colorido, tirar foto numa ovelha rosa; dentre outras cousas mais, eram abomináveis aos olhos da minha mãe. Lembro de uma vez que ela falou que ia me tirar da escola pq eu perdia tudo. Eu perdia mesmo, e tinha uma menina que jogava minhas coisas no lixo, então todo dia eu voltava pra casa sem alguma coisa. Até o dia que ela amarrou varios lápis com um barbante no estojo. Eu voltei pra casa sem o estojo, aos prantos. Ela não me tirou da escola (droga). Outra vez, resolvi fazer uma boa ação pra um colega da sala. Doei minha lancheira pra ele. Apanhei dela nesse dia. VAI ENTENDER.
Sobrevivi algumas situações com minha mãe que foram desde afogamentos a queimaduras graves. Teve tbm o episodio do dramin que não era dramin, dos meus vômitos constantes que ela me isolou pra não ver, de quando ela me enganava pra tomar banho antes de mim (faz isso até hoje).. é muita coisa pessoal!
Durante um tempo, eu resolvi ser burro, e desrespeitei minha mãe. Fui grosso, inconsequente, e queria que ela fosse igual a outras mães, quando na verdade eu não percebia que a minha era única e eu era privilegiado. Percebi, e hoje nossa relação é a melhor possível! Hoje nós somos muito amigos, temos uma liberdade fora do comum um com o outro, nos entendemos e somos muitos felizessssssssssssssssssssssssss, eeeeee.
Minha mãe levava jeito com a gente. Acho dahora hoje qdo eu vejo mães com filhos pequenos, pq o filho é totalmente dependente da mãe. E a mãe vive pro filho.Quero ser que nem minha mãe com meus filhos, só que pai. Ela viveu e vive por mim e meus irmãos. Quero viver por ela, e retribuir tudo o que ela me deu.
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escrito por Vinicius Lopes, um @ do nestante que não nos enviou foto da mãe!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

minha mãezinha....

Olá galera do Nestante. Gostaria de agradecer a vocês pelo convite de escrever aqui no blog na série “conto4conto”, e de modo especial ao meu amigo Mic (@wcalmeida) que foi quem me fez o convite!
Talvez você que está lendo este post não me conhece (muito provável! rs). Meu nome é Newton Prado e dispensarei apresentações, pois sou péssimo em fazê-las! No fim do texto deixarei um link de contato para quem quiser.
Primeiramente gostaria de parabenizar todas as nossas mães pelo dia especial que é dedicado a elas, merecidíssima homenagem! Eu me considero abençoado, porque além de minha mãe biológica possuo duas outras mães, mulheres que ao longo do tempo passei a amá-las e considerá-las carinhosamente como minhas mães.
Mas hoje vou falar sobre minha mãezinha (Verginia). Então chega de blá blá blá e vamos ao que interessa.
Lembro-me de que numa tarde muito quente em meados dos anos 2000, minha mãe e minha tia estavam em casa e atenciosas ao relógio porque minha prima havia saído para fazer um trabalho escolar e já tinha passado do tempo combinado para ela retornar. Ela estava apenas a um quarteirão e meio de onde morávamos e acabou sobrando pra eu ir buscá-la. Subi no meu camelo e fui.
No caminho ao invés de me atentar a rua, fiquei observando um moleque com um estilingue tentando acertar um pássaro indefeso. Com isso eu bati a bicicleta em uma carroça que estava encostada e sucessivamente bati a cabeça no cabeçalho da mesma. Levantei, limpei a poeira, peguei a magrela e continuei meu destino resmungando.
Faltando alguns metros para chegar a casa onde minha prima estava, senti um liquido muito quente escorrendo pela minha cabeça, quando passei a mão e olhei entrei em pânico, dei um cavalo de pau e voltei correndo para casa. Quando cheguei lá atravessei o quintal muito rápido e ouvi minha mãe reclamar para tia Silvana que qualquer dia eu iria me arrebentar andando tão rápido de bicicleta. Quando fui entrando na sala empurrei a porta com a mão suja de sangue para o desespero de minha mãe. Imediatamente ela correu para perto de mim, e eu inocente (rs) imaginei que seria socorrido naquele momento, mas, ela de tão apavorada que estava, cria que eu tinha sido atropelado e me BATIA para que eu dissesse quem foi, se eu tinha anotado a placa do carro e etc. Cena inacreditavelmente cômica!
Depois de tudo isso ela me deu banho e me levou ao pronto-socorro. Lá o doutor fez uma falha em meu cabelo – que havia cortado, dias atrás – do tamanho de uma bolinha de ping-pong pra encontrar um corte que nem precisou de ponto, só um pedaço esparadrapo foi suficiente. Sempre que comentamos da infância aqui em casa nos lembramos desse e outros momentos. E minha prima que eu tinha que buscar? Até hoje eu não me lembro de quem foi buscá-la, mas pela lógica dever ter sido minha tia (rsrs).
Abraço!
Eu e minha mãe: foto do ano passado do dia das mães.





ps.: para os que quiserem contato, eles estão disponíveis em uma coluna em meu blog >> newtonprado.com

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A minha mãe...


Dizem que se gritar  ''mãe''  3 vezes no banho, aparece uma mulher trazendo uma toalha pra você, no meu caso é serviço duplo, além da toalha vem uma reclamação de que eu usei todas as toalhas limpas da casa, se minha mãe não fosse esposa, dona de casa e mãe, aposto que ela seria compositora, porque nunca vi tanta criatividade pra errar a letra de uma musica e trocar por outro significado. Minha mãe ama tudo, é bem fácil ''comprar'' ela, só dar um chocolate ou um presentinho e pronto, a raiva vai embora e o sorrizinho aparece no rosto. Depois que minha irmã casou e saiu de casa, restou apenas 3 sobreviventes  (Eu, meu pai e o mais novo cachorro mais lindo do mundo, Bill)e minha mãe. E não tem sido fácil conviver com tanto amor.
Ah, o nome da minha rainha é Maria do Socorro, ela é do piauí, veio morar em goiânia aos 14 anos, conheceu o pão de queijo(meu pai), se casaram tiveram minha irmã, resolveu operar pra não ter mais filhos, mas descobriu que tinha um presente mais lindo do mundo(eu), assim que nasci, operou correndo pra não cometer o mesmo erro.
Eu já passei por vários apertos na frente dos meus amigos, nunca vi gostar tanto de contar meus defeitos, igual minha mãe. Se deixar ela passa o dia todo contando sobre mim (costumo nunca deixar ela sozinha com eles). Minha mãe nasceu pra reclamar, reclama se eu não arrumo minha cama, ela reclama por eu não ter trocado o lençol, se eu troco o lençol ela reclama que eu usei o lençol errado. Vai atender.
Mas fera mesmo, era eu e minha irmã pra escapar do cinto, quando faziamos arte, já nos preparavamos pra surra. Se era eu a arteira minha mãe já vinha gritando ''Thairine, traz o cinto''. Pra minha sorte, minha irmã sempre foi boazinha, e escolhia o cinto mais macio, no meu caso era diferente, sempre fui vingativa. Mas um dia cansada de apanhar sem sentir dor eu reclamei ''Mãe esse cinto não dói''. Pra nunca mais. Não sei como sobrevivi... A melhor desculpa pra não apanhar, era de ajoelhar e fazer oração. Minha mãe sempre esperava, esperava demais e desistia. Ufa, essa foi por pouco.
Mas mãe é uma só, uma joia rara que não se deve guardar no bolso, se as nossas mães soubessem reconhecer o tanto de coisas que já recusamos por elas, o mundo não existiria tanta revolta. Mas não, mãe adora implicar e cobrar sempre mais. E qual a nossa função? Ter toda a paciência do mundo e esperar o bolo de chocolate sair do forno, e ainda elogiar, que é a parte fundamental. Pra ter uma mãe não precisa de dinheiro, uma simples meia suja e palavras carinhosas bastam, não poupe ''eu te amo'', beijos e abraços. Ame-a e cuide, porque mãe não dura pra sempre, mas o tempo que passamos com ela é eterno. Feliz dia das mães pra minha mãe!
familia da +Daniele Martins 

Maria do Socorro - (dona help!)

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Daniele, ou simplesmente Dani, tem 18 anos,
estudante de psicologia, diretora de musica,
e apaixonada por animais, vive em conflito
com a mãe, mesmo reconhecendo que ela
é a melhor mãe do mundo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Espera


É hoje! Ao acordar, penso na volta de Carolina. Na minha amada e doce namorada. Pego o anel de noivado que está em cima da escrivaninha e coloco no bolso. Ela com certeza gostará da surpresa. 
É hoje! Decidi há uma semana que preciso viajar, tirar minha mente do Pedro. Não é fácil se separar de alguém que trilhou parte do seu caminho. Venho perdendo batalhas diárias no propósito de superá-lo. Passo de carro na frente do novo apartamento dele, mesmo com a minha mente me acusando de traição. As fotos dele estão por todo lado, ainda durmo com a camiseta que ele me deu… Só pode ser masoquismo. 
Chego ao aeroporto, o taxista me ajuda a descer as malas. Estou atrasada, corro pra pegar a fila do check in. No meio do caminho, esbarro em alguém e minha bolsa cai no chão, esparramando o conteúdo: óculos, maquiagem, documentos… 
Carolina não desembarcou. Esperei ansiosamente para que ela surgisse em meio àqueles que retornavam aos seus amados. Mas não consegui ver  nenhuma mecha loira que pertencesse a ela. Não estava na lista de passageiros. Ela poderia ter perdido o vôo, é comum para alguém tão distraída. Apesar disso, fica difícil me conformar. 
Recebo uma mensagem, é dela. Me diz que nunca voltará, que encontrou um lugar e um novo amor. Assim, rápido e cortante. Fico imóvel, incapaz de mover um músculo sequer. Somente os olhos piscam, tentam se livrar das lágrimas apressadas. O estojo no bolso parece pesar uma tonelada. 
Uma hora depois ainda estou no mesmo lugar. Já não há mais choro, apenas o vazio. Sei da necessidade de continuar a vida e é isso que, finalmente, me leva a sair deste estado de inércia. Estou passando pelas portas. 
Alguém esbarra em mim. Uma mulher com cabelos pretos presos e um óculos escuro. 
- Perdão, moça, não a vi. 
- Eu percebi - diz a moça, recolhendo seus pertences. Ajudo com algo, minha mente longe dali. 
Seu passaporte está aberto, a uns poucos metros. Me levanto e vou pegá-lo. Vejo seu nome. 
- Seu nome… 
- Algum problema com o nome "Carolina"? 
- Não, nenhum - respondo, hipnotizado. 
- Ok, obrigada, adeus. 

Sina, destino, alguns crentes podem até dizer que são os astros. Vejo a linda moça partir, mas um calor bom passou pelo meu peito rapidamente. Adeus, Carolina! 

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Agradecimentos:

À equipe do Nestante, pelo convite e pelo apoio. 
Ao meu amigo Isaque Rodrigues, por acreditar em mim e nos meus textos. 
À minha amiga Andréia Andrade, por oferecer material de pesquisa. 
À todos os leitores que acompanharam os relatos destes dois personagens. Obrigada!  
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Divulgação/Facebook

Lisy Muncinelli é:
“Jornalista de alma, fotógrafa em aprendizagem.
Escritora por vocação.”
você encontra ela no:


**Lisy é convidada para  a segunda temporada de CONTO 4 CONTO.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Desconexo


    Não sei para quem redijo esta carta. Com certeza não será pra você, Pedro. Não me sinto mais a vontade para partilhar o que se passa dentro de mim. Talvez ficará inacabada, talvez será esquecida no fundo da gaveta, o que sei é que preciso colocar meus pensamentos em palavras, vírgulas e pontos. 

    Meus dias tem sido escuros, assombrados pelas lembranças. Me sinto desconexa, não sinto mais o fio que me ligava a você. O que sobra é me reinventar, desviar do caminho que estava percorrendo, remanejar. Vou lá fora respirar ar puro, andar um pouco, ver o que o mundo percorreu enquanto eu estava me preocupando contigo. Talvez eu encontre cor nas azaléias, canto nos pássaros e sonhos pelo caminho. Mas vou me livrar do fantasma da nossa relação. 

Ah se vou! 

Ass. Carolina


    Faz cinco meses que você partiu, Carolina. Cinco é o número de cartas que eu te enviei; recebi apenas duas, monossilábicas. Não sei se é a falta de tempo ou a falta de interesse que te impede de escrever mais. Prefiro ficar na ignorância. 

    Semana que vem você chega. Meu coração bate no ritmo do samba, aquele de raiz, criado na roda miúda pelos experientes moços de cabelos brancos. Velhice essa que possivelmente nunca chegaremos a experimentar, meu coração quase anseia por um romance shakespeariano. Você já reclamou comigo várias vezes por causa desse meu anseio dramático. Acredito que seja apenas reação ao meu imenso apreço pela arte. 
   Me fiz desconexo, sem querer. Perdão. 

Epílogo: O que importa é ver seu rosto tão belo, não mais apenas em meus sonhos… 

Ass. Pedro
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Divulgação/Facebook

Lisy Muncinelli é:
“Jornalista de alma, fotógrafa em aprendizagem.
Escritora por vocação.”
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**Lisy é convidada para  a segunda temporada de CONTO 4 CONTO.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Breguices e Carinhos


  O que será que foi, Pedro? Não sei o que mais me atrai em você. Será os olhos, escuros e profundos, que ainda guardam o brilho da juventude? Talvez seja o jeito como movimenta as mãos enquanto fala, rápido e empolgado, acompanhando o fluxo do pensamento. A maneira como você arruma o cabelo sempre do mesmo jeito nos últimos dez anos? Pode ter sido a quantidade e qualidade absurda de assuntos abordados em uma única conversa. Ou o seu caminhar, lento e despreocupado, que contradiz com a velocidade do mundo moderno.
   

  Não sei o que me fez apaixonar por você. Você pegava na minha mão e me levava pra comer um cachorro-quente. Reclamávamos da falta de dinheiro e você me prometia que isso mudaria. Apostávamos quem conseguia fazer mais cócegas no outro. Eu dirigia seu carro e ria da sua cara de preocupado.Susurros no ouvido me deixavam arrepiada. Nos beijávamos debaixo de chuva, os pingos correndo por nossos rostos. Você me dava caixas de bombons e eu reclamava que você não me ajudava com a dieta. Caminhávamos pela praia e olhávamos para as marcas que nossos pés faziam. Ouvíamos canções românticas e você me dizia que queria casar comigo.

  Não sei quando percebi que te amava. Você me deixava louca quando largava a toalha molhada em cima dos lençóis. Dormíamos de conchinha, meu pé congelando sua perna. Me surpreendia com um buquê de gérberas e café da manhã na cama. Você chegava do trabalho e eu fazia massagem. Na quarta, você ligava a televisão e assistia futebol e eu não podia atrapalhar. Discutíamos sobre filosofias e você sempre me dizia uma teoria que eu desconhecia. O primeiro apartamento foi comprado com meu dinheiro, mas você queria dar sua opinião na decoração. Você preparava o jantar e eu colocava um jazz para tocar. As contas eram esquecidas e várias vezes cortaram a energia. Deixávamos de sair com os amigos pra ter uma noite de filme e pipoca. Você dizia que eu te sufocava.
   

O que será que foi, Pedro? Te perder dói.

Epílogo: Pode vir pegar o resto das suas coisas na terça.



Ass. C 
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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Alô e Adeus


Eu gosto de aeroportos. Digo isto porque é algo que você provavelmente nunca notou, nós sempre fomos breves em nossas despedidas. Algumas vezes já me peguei sentado em uma mesa observando as pessoas entrarem e saírem dos portões, enquanto tomo café. É um hábito que me ajuda bastante a passar o tempo, Carolina.

Já vi empresário de maleta e notebook, figuras solitárias e cheias de pressa. Pare eles, tempo é dinheiro, por isso mantém o celular no ouvido e o dedo no teclado enquanto esperam a chamada para o vôo. Essas pessoas desperdiçam o tempo com o que não é tão importante, Carolina.

Vi também a moça nova, seus dezoito anos, com malas grandes e pais chorosos a tiracolo. Está empolgada para morar em outra cidade: a idéia de independência bate a porta, mas não diz quem realmente é. Por enquanto o gosto ainda é do mais saboroso mel. Muitas vezes, pessoas esperam algo de seus sonhos, porém descobrem uma realidade diferente, já parou para pensar nisso, Carolina?

Observo agora a mãe de uma família de quatro crianças se dirigir ao portão de embarque. Não consigo descobrir o que fará quando chegar ao seu destino, mas ouço a promessa de pequenos presentes para cada um dos pimpolhos. O pai dribla um e outro para dar um abraço na esposa. Ela finalmente entrega a passagem e entra. As vezes penso se um dia chegaremos a formar uma família, Carolina.

As despedidas me tomam mais tempo, mas não esqueço das chegadas. São pequenas bolhas de alegria que estouram a cada passageiro que aparece. Abraços apertados, choros e gritinhos chegam aos meus ouvidos. São tantas perguntas feitas que o viajante não consegue se concentrar em apenas uma. Todos querem levar a mala, ficam espiando a procura de algum presente. Prometo que separo para a sua volta aquele doce de coco que você tanto gosta, pode ser Carolina? 

Volto para o carro, mas ainda consigo ver o avião levantando vôo e seguindo seu rumo, levando um mar de preocupações, sonhos e saudades. Queria eu que ele também levasse a saudade que sinto de ti, Carolina.

Epílogo: Você deve estar se perguntando por que escrevi uma carta e não um e-mail. Pode chamar de saudosismo, eu tenho gosto pela letra escrita pelo próprio punho. Não espero que me escreva do mesmo jeito, mas faça do jeito que achar melhor.

Ass. P. 

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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Meio

vitória dobra as folhas e joga-as longe. não, não pode ler mais do que já leu. nem ao menos chorar mais por um amor que não é o seu. os olhos inundam as bochechas de lágrimas. ela sofre sinceramente por um amor que não é seu. e sofre, principalmente, por não ser seu, mais do que por ser um amor. fere saber que os românticos não foram extintos e, mesmo assim, não lhe aparecem no caminho. não lhe mandam uma carta dizendo para esperar a eternidade e nem selar com um beijo cheio de saudade do cheiro de fruta que tem em seu corpo. ela não tem cheiro de fruta, é verdade. mas também não tem ninguém que lhe cheire a nuca e diga que gosta. não tem. simplesmente espera cartas que não chegariam nunca, porque não encontrou quem as mandasse. ou encontrou e, quando menos esperava, foi embora. ela não sabe cultivar um amor. não sabe regar, não sabe dar tempo e espaço para criar raízes. então, chorando as lágrimas que não eram para ser suas, percebe que sua fé na vida é vontade de encontrar alguém para amar - um amor que sabota sempre e continuamente, reabastecendo a fé com a desilusão.

rasga o envelope de olhos fechados. não quer saber o nome, não pode ter certeza de que a carta não é para ela. a carta poderia ser de tereza e quem lhe escreveu fo o homem da fotografia antiga. se não tivesse rasgado, saberia em qual mesa deveria ter ido parar a correspondência, mas que acidentalmente tornou-se a sua. deu sorte que, desde o cabeçalho, os nomes foram trocados por apelidos carinhosos no diminutivo. sente-se amorzinho, queridinha, maçãzinha. faz-se vocativo. apronta o quarto interno do coração para o sentimento novo que chegou. afofa a cama, ajeita o tapete. e espera. troca a roupa, limpa a maquiagem, suspira altiva. e espera - de novo. não se cansa e não perde a força.

marcos pinta freneticamente. não quer perder nem sequer um detalhe da imagem que guarda na memória. o vermelho vivo parece esfumaçado - quando visto nas pálpebras. mais escuro, parece sangue. parece vivo e, por isso mesmo, real. tem vontade de beber. e já não sabe mais se a vontade é de abocanhar como uma fruta ou sorver como um licor. não sabe. será que embriaga? pensa. delira. gira no quarto com a palheta na mão e a mistura entre as matrizes. cria cores que não será capaz de reproduzir. e por quê? porque esse é um quadro único. é sua obra-prima. sua avó choraria vendo-o. seu pai se orgulharia. é tão intenso que parece ser dotado de forças vitais. não faz rascunho. não precisa. tem vontade de pintar as paredes, o chão, o céu. tingir as folhas das árvores de vermelho! o mundo vermelho, uma grande e suculenta maçã. viveria como um desses bichos que comem o fruto inteirinho por dentro e deixam a polpa podre. a cor viva - mesmo assim. viveria imerso, afogado no suco agridoce da maçã. alguém que acredita no amor, diria que ele sofre de paixão. assim, devastadora, à primeira vista. paixão: com todas as letras e no aumentativo preciso do tamanho desacerbado de seu sentimento. e a cor? escarlate. vermelho. rouge. sempre. sente vontade de abrir a porta, atravessar a rua correndo, bater à porta do outro lado e implorar.

abrir o coração sempre cheio de amarguras e cicatrizes. e deixar plantar algo de lindo e novo. mas não abre a porta. não gira a chave. não corre pela rua. não se move. estanca a pincelada. o quadro vai virar artigo de luxo na próxima feira. seu pai não vem ver. sua avó não vem ver. algum dia, alguém numa sala bem decorada, vai olhar para o quadro e perguntar sobre o pintor. mas a dona não saberá nada a respeito. comprou na feira, assim: a preço de nada. quase de graça. um quadro expressivo, assim com pinceladas tão fortes e grossas de vermelho. tons tão diferentes. e esse mesmo alguém, inspirado pela arte, vai compor um série imensa de quadros chamada fogo e vai vender na europa. mas marcos nunca saberá, porque não sai de casa. não sai do quarto. não enfrenta a vida. viveria um grande amor, mas acaba em uma pintura fria.

mas isso é só o meio da história, tudo é sempre um meio. temos fins e começos, mas que se trançam em tantas outras histórias - que já existem no mundo e estão pela metade - que acabam se tornando meios. caminhos. fios de uma única manta, rezas de um único mantra. e, então, quando achamos que encerra-se um ciclo, um outro se inicia. não vivemos em círculos, mas em espirais. dando voltas e voltas - vez ou outra temos breves pausas para não enjoar. mas gira-se. move-se sempre. como se a vida fosse um trilho e nós, sentados no carrinho de montanha-russa, aproveitássemos o passeio cheio dos seus loopings. existem sempre infinitas histórias que poderiam vir-a-ser, mas que não são, porque um pouco antes de acontecerem, alguém desvia de caminho, alguém evita, troca, estende. e toda mudança gera novas possibilidades, altera os fatores das probabilidades todas. não há laço que não amarre outro fio. sempre assim, o tempo inteiro.

e tereza, que já perdeu um amor, contempla de sua janela outro ser desfeito - antes mesmo de começar - e sorri desconsolada por causa disso. sente o peito apertar. por quê? não sabe. mas sente, aprendeu a ser sensível desde pequena, quando o pai foi embora e nunca mais voltou. aprendeu a buscar amor em outros braços. aprendeu a por a mesa e fingir que, na verdade, é só uma vontade de deixar tudo arrumado. faz chá de maçã, por causa da árvore que tinha no quintal. aprendeu doendo a ser sensível à beleza. e ter paz. sempre que reflete sobre a própria vida, gosta da epifania que tem quando percebe que é de paz a essência que lhe infla. faz silêncio. a mão sobre o braço desnudo está meio fria por causa do vento que sopra fino, parece cócegas. antes de virar-se para pegar uma blusa, ora por alguém que nem imagina o nome. só ora. e observa. e espera - por um fim que seja começo e meio ao mesmo tempo.

o sol poente tem cor de maçã.


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Divulgação/Facebook

Stefano Manzolli, dezenove anos, adventista do sétimo dia, escritor de blog, desenhista de moleskine, estudante de letras. um grande aprendiz da vida que não domina muito bem a arte, mas que tenta melhorar com o tempo. aprendeu a ser grato a Deus e não sabe mais viver sem redes sociais: tem tumblr
, web-book, twitter e facebook . gosta de conhecer e experimentar o mundo através dos outros e das coisas que escreve.





Esse é o ultimo conto de Stefano, relembre Maçãs , Marcos ,Tereza e Vitória

**Manzolli é o convidado e amigo de Dani para a web-serie CONTO 4 CONTO.
ela acontece as quintas-feiras!**

quinta-feira, 21 de junho de 2012

maçãs


tereza, naquela manhã, pouco antes de se colocar ao pé da janela para esperar, mas logo em seguida a terminar de escovar seus dentes depois do almoço, retirou uma foto da gaveta. poderia ser preto e branco, talvez bem tirada, num estúdio, como essas todas que avós costumam guardar para lembrar dos parentes que já morreram faz um tempo. mas aquela foto não era boa, de jeito nenhum. era uma foto feia: tirada na praia, contra a luz, um pouco tremida. o homem, de sunga azul claro e chapéu de palha, fazia graça pra câmera. algo como uma careta com o corpo todo retorcido. os óculos de sol parecem tombar do rosto magro e, por causa do movimento, há uma nuvem de areia circundando tudo isso. é uma foto estranha, porque quem tirou provavelmente ria e, assim, deixou cortar um pedaço da cabeça e desenquadrar o corpo do meio do papel. mas, no fundo, por causa de tudo isso é uma foto linda. não é de estúdio, não é pensada: é uma foto. é um fragmento de vida, é um desses sorrisos sinceros que, de tão largos, deixam o rosto meio deformado: o nariz desce meio adunco, as orelhas correm pra trás, as bochechas se enrrugam, os olhos meio fechados. e essa estranha combinação é a beleza do sorriso. é a beleza que existe em quem é alegre. tereza passa um dos dedos enrugados sobre a feição, como se pudesse tocá-lo, parece que está triste e feliz ao mesmo tempo. diz um amém baixo, quase sem força. e então põe-se na janela. a brisa em seus ombros. olha pra baixo, percorre todas as pessoas que estão na rua com seus olhos atentos e tem sua atenção chamada por uma menina de vermelho. por um carteiro que lhe entrega uma carta. ah, como queria que fosse ela! tem vontade de tomar chá para acalmar a alma. chá de maçã.

uma carta para mim? sim, você não estava esperando? vitória pensou em mentir, dizer que não, nunca espero cartas. não, nunca abro a caixa de correio. oh, como estou surpresa. espero, moço, foi o que disse por fim, espero sempre e nem sei o porquê. espero uma carta que não sei da onde vem e nem por que vem. espero todos os dias que uma vinda, na verdade, um regresso, um hiato na estrada de alguém que seja aqui: na minha caixa de correios. espero que alguém se importe e me mande dizer, via papel e tinta, que sente minha falta. eu espero. e talvez a partir de hoje eu não precise mais. o carteiro deu uma risada - era dessas pessoas que sabem apreciar a poesia da vida quando ela surge assim, do nada, no meio de uma entrega pelos lábios vermelhos de uma menina vermelha numa manhã de sol. quem é que mandou? pergunta um pouco para si mesma, um pouco para o rapaz. bernardo mandou - respondeu quase ao mesmo tempo, ele com a certeza de que ela o conheceria, ela com a dúvida de que o nome nunca lhe passou nos lábios. agradece a carta, ele cumprimenta-a uma última vez abaixando o rosto, revelando o topo azul do chapéu amarelo. vitória senta-se à mesa, o envelope colorido em mãos - as quais formigam levemente. é nervosismo, ela sabe. ela não quer abrir, ela não pode abrir. porque não é para ela. com certeza não. mas também não tem coragem de virar o envelope e ver o nome do remetente. tateia vagarosamente e percebe que a carta é grossa, pelo visto é longa: de alguém que tem muito para falar. aos poucos, como se fosse um ritual sagrado, rasga a lateral do papel, tomando cuidado para não rasgar a carta, nem sequer uma beirada. faz isso com precisão cirúrgica e coração de apaixonado - que treme quando se vê diante do fragmento de quem ama. sonha que, talvez, bernardo lhe ame. assim às escondidas. mas ela não sabe quem ele é. com certeza, não. e a quebra da sua expectativa, então, é saber de quem bernardo fala e como é que fala. e porque fala. espera que seja uma carta de amor. espera amar um amor que não é dela, mas lhe chegou nas mãos.

marcos fica observando-a do momento em que pega a carta nas mãos. em que fala uma porção de coisas bem alto para o carteiro - que não entende, mas balança a cabeça compreensivo. vê quando gesticula tanto com as mãos que parece, na verdade, estar dançando com um parceiro imaginário. é bonita. de todo, assim de longe. como uma formiga vermelha. parece uma maçã, ele pensa e, por causa disso mesmo, tem vontade de mordê-la para sentir o sabor. e ter o suco escorrendo pelos lábios. para saber a cor que esconde por dentro, debaixo do casaco - ou seria sua pele? - vermelho. observa-a hipnotizado, seus passos, como tateia vagarosamente a carta, com o maior respeito. quem é que lhe mandou? não sabe. não há como se saber se não descer as escadas do prédio, bater em sua porta e perguntar. mas tem vergonha de fazer isso, tem vergonha do amor. tem vergonha de sentir amor, de querer amor, assim facinho. dado de graça por causa de uma carta, um casaco vermelho, um quadro inacabado e meia dúzia de rascunhos jogados pela janela como se fosse uma chuva de papel picado. tem medo de sorrir, mesmo que agora sinta uma vontade imensa. sim, precisa de um sorriso, precisa gritar espere, menina! mas não grita. não se move, fica e nesse ato de ficar, decide pintá-la. acha melhor pintá-la de costas, sem olhos, sem mãos. sem esses signos todos que lhe perturbam em quadro de gente. não quer ter a aflição do piscar ausente e nem os lábios que não gritam e não falam e não se mexem. quer deixar assim de costas e morrer de uma tentação maluca de cutucar-lhe o ombro e esperar que vire. também não vira e, por causa disso mesmo, maçãzeia-se cada vez mais. um fruto maduro esperando a mordida do descobrimento. mistura dois tons de vermelho diferentes e começa com pinceladas fartas.

vitória abre a carta. evita as primeiras linhas, vai direto para a terceira página. bernardo diz que não aguenta mais a saudade das maçãs. das tortas de maçã, do chá de maçã, do cheiro da maçã - porque a pele dela, que ele tem tanta vontade de beijar de novo, tem cheiro de maçã. um cheiro gostoso de manhã nova, sempre e sempre. dela quem? vitória não quer saber. prefere não saber, porque é uma carta de amor que poderia ser pra ela. discretamente cheira-se, mas tem perfume de mel, por causa do creme. não é poético o seu cheiro. não é poética a sua vida e espera que um dia, quem sabe, uma carta venha lhe tirar da monotonia. e essa carta chegou - mesmo que não lhe seja endereçada.

tem chá de maçã no bule, tem cor de maçã no pincel, tem cheiro de maçã na vida, e três janelas abertas se olhando, se desejando. às vezes é preciso fender o fruto para viver um amor eterno, mesmo que não seja o seu. da distância da espera por algo que não virá ao seu encontro é preciso gerar uma força de correr em busca do que se esconde. era um bairro esse no meio de uma vila comum. Cheio de histórias incríveis.

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Divulgação/Facebook

Stefano Manzolli, dezenove anos, adventista do sétimo dia, escritor de blog, desenhista de moleskine, estudante de letras. um grande aprendiz da vida que não domina muito bem a arte, mas que tenta melhorar com o tempo. aprendeu a ser grato a Deus e não sabe mais viver sem redes sociais: tem tumblr
, web-book, twitter e facebook . gosta de conhecer e experimentar o mundo através dos outros e das coisas que escreve.










Esta são maçãs, relembre Marcos ,Tereza e Vitória

**Manzolli é o convidado e amigo de Dani para a web-serie CONTO 4 CONTO.
ela acontece as quintas-feiras!**
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